Depois devolvo-te a tua t-shirt horrenda
Era uma daquelas noites quentes de Verão e eu fechada numa sala sem ar condicionado num aniversario em que mal conhecia a aniversariante e rodeada de perfeitos desconhecidos que dançam como loucos , no que mais parece uma competição para ver quem abana o rabo melhor . O que me consola ainda é a Marguerita que tenho entre mãos e que vou saboreando lentamente , há um palerma qualquer que não pára de olhar - deve estar com algum problema. Felizmente a Raquel chega para me salvar do estronço que já vinha lançado para a minha mesa .
- Anima-te Sónia vai dançar um pouco! E acaba por me puxar à força para o meio da sala onde o concurso do abana , abana esta ao rubro . Ainda faço um esforço mas não estou com a menor vontade de ali ficar digo que vou apanhar um pouco de ar e saio dali.
Cá fora há menos movimento apenas alguns convidados que como eu se sentiram a sufocar naquele pequeno espaço; a lua esta linda hoje e sento-me a observa-la nas frias escadas de granito. Ao longe vislumbro um vulto que se aproxima:
- Posso fazer-lhe companhia? Eu até queria ficar sozinha no meu canto mas estou a ver que hoje vai ser impossível. Esboço um sorriso e encosto-me à parede dando-lhe espaço para ele se sentar. Deve ser da lua mas até lhe começo a achar uma certa piada.
Nome de anjo, cara de menino bem comportado, corpo de demónio (que mexe comigo) e alma de reguila, é este o meu companheiro de escadaria. Pele morena, 1.80m de fortes músculos e para mal dos meu pecados olhos verdes penetrantes, mas como nunca se pode ter tudo e o meu Homero não é excepção, falta-lhe a capacidade de raciocínio. Percebi isso em dez minutos de conversa (espero que seja mais rápido na cama - lá estas tu Sónia com essa tua mente perversa). Mas definitivamente de santo o meu Gabriel só tinha o nome começava a senti-lo despir-me com os olhos sem mesmo me pedir licença .
E duas horas depois já estava eu sentada no sofá preto (ao menos tem gosto) da casa dele a beber um martini e a sentir lhe a mão subir pelas minhas pernas, daí até chegar à cama dele não demorou muito embora lento de raciocínio o meu anjinho é rápido nos preliminares. Era estranho mas ele sabia exactamente o que eu queria e como queria. Parecia que me lia os pensamentos enquanto me possuía.
Lembro-me de chegar a pensar que ele deveria levar muitas para aquele quarto mas também com aquela cara poucas lhe resistiam e com o tempo foi se aperfeiçoando nesta técnica de seduzir e dar prazer, por outras palavras um verdadeiro Mata-Hari em versão masculina.
Amanhecera e eu nem dei por isso. O meu anjo Gabriel dormia agora exausto ao meu lado e os primeiros raios de sol invadiam o quarto sem pressas mas com uma precisão implacável como o meu Mata-Hari de serviço. Olho agora bem para o quarto que me parecia em estado de sítio: roupas espalhadas, jarras partidas... ia ser difícil eu sair dali minimamente vestida…
Pobre vestido preto todo rasgado!, e o meu fio dental desaparecera, mas não me importei minimamente com isso. O Gabriel era ainda mais apetecível agora com o sol a bater lhe na cara e as costas cheias de aranhões (eu sabia que não devia deixar crescer as unhas). Beijo-lhe a face e levanto-me da cama. Agora começo a ver bem a casa, decididamente a de um solteirão com classe e o mínimo de bom gosto, tudo muito sóbrio e bastante moderno e ali no meio da confusão em que se transformou a sala jaz solitário o meu fio dental encarnado - ao menos já tenho algo para vestir não é lá grande coisa mas hei de arranjar uma solução para sair dali .
E arranjei mesmo, encontrei uma t-shirt dele que me chegava ate aos joelhos, azul com umas letras enormes amarelas - se sair dali com isto das duas uma: ou passo desapercebida (também com a moda dos dias de hoje) ou pensam que ando a vender algo. Mas como as hipóteses não são muito animadoras lá vou ver do meu vestido preto e enfio a tal t-shirt por cima - ao menos estou vestida. Penteio o cabelo enquanto lhe escrevo um bilhete a pedir desculpas mas que terei de levar a t-shirt (espero que não seja nenhuma relíquia porque realmente e horrível agora que vi bem no espelho), prometi que a entregava são e salva assim que me fosse possível e vim me embora.
Na rua o sol já ia alto deveriam ser umas onze horas (ai a falta que me fazem os meus óculos escuros!, mas também com esta roupa tenho é de me meter num táxi depressa para que ninguém me reconheça). A rua está movimentada. Pessoas passam de um lado para o outro e com um pouco de sorte ninguém repara no que trago vestido.
Entro no táxi e peço ao taxista para me levar a casa.
- Para Santa Apolónia por favor.
- A menina vai viajar? Ou esta a fugir de alguém assim vestida?
Que graça , por acaso até me deu vontade de rir e de lhe responder em seguida que tive uma valente noite de sexo e como não tinha o que vestir porque aquele tarado rasgou-me o meu vestido preto que me custou os olhos da cara, tive de vir assim para a rua. Mas não o faço, não valeria a pena. Recosto-me no banco e vejo a agitação nas ruas por onde vou passando. Também que culpa tenho eu de viver perto da linha do comboio?


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