Quinta-feira, Setembro 23, 2004

porta arrombada

Quando acordei naquela manhã a Carolina já não estava ao meu lado. Pensei com os meus demónios de estimação. Deve estar amuada. Depois passa-lhe. Nada que uma boa queca não faça. Eu conheço-te Carolinazinha... aqui, na palminha da minha mão e já tenho o nosso futuro todo traçado...
Levanto-me, ainda meio ensonado e contínuo a pensar. Esta gaja está uma aluada. Só roupas espalhadas. Isto não é habitual em ti. Aqui há gato... e por falar nisso... onde estará a gatita que costuma dormir aos pés da cama... hum?
Pensava ela que podia enganar-me assim com três cantigas. Vadiazita...
Foi justamente por causa do raio da gata que te lixaste. Ah pois é... o António não é parvo. Logicamente que dei logo conta que a gata não estava em casa. E se a Carolina foi trabalhar, porque raio a gata não estava em casa?
Enquanto estava sentado na sanita pus-me a divagar sobre a questão... mais uma das suas batidas em retirada... dá tempo ao tempo António... e ia fumando o meu cigarro descansadinho e a preparar um plano para a ir buscar ao emprego.
Quando vou para sair meto a mão ao bolso à procura das chaves. Bem... devo ter deixado algures, por aí... isto não me cheira...
Revolvi tudo à procura do diabo das chaves. Nada. Puta de merda. Levou-as com ela. Só pode.
E o que é que o génio do António decide fazer, hã? Lixar aquela espertinha mas de uma forma inesquecível... e eu já andava com esta fisgada desde aquele e-mail da treta que ela me enviou...
Voltarei cá ao fim do dia. Nada de precipitações. Confiro tudo. Tenho tudo aqui comigo. Isto foi o que se passou até sair para a rua. Excusado será dizer que tive um dia merdoso a remoer-me de raiva. E quanto mais me tiram a paciência pior será a vingança...

e-mail para Carolina às 11h35:
Minha querida, contínuas no teu melhor. Ainda tenho o aroma do teu corpo entranhado no sangue. Perdoa-me o incidente de ontem. Sabes que por vezes nem sei o que me passa pela cabeça. Amo-te demasiado, sabes? Perdoa-me minha linda. Não voltará a acontecer e tenho a certeza que daqui para a frente tudo será um mar de rosas. Vamos mergulhar juntos nessas ondas de pétalas?

Um beijo nos teus doces lábios de gata selvagem...

António

Mais tarde regresso ao nosso ninho de amor. Eram sete da tarde quando cheguei pronto para arrombar a porta.
Quando estou a meio do meu serviço sujo, mas com arte, aparece-me assim de repente, vindo não sei de onde o totó Daniel... o vizinho totó... o paspalho, ridículo... humpft!

- Que é que quer? Diga lá? Ela não está em casa percebe?
- Desculpe vizinho... eu preciso falar urgentemente com a Dona Carolina e...
- Dona Carolina? Mas que raio de cunfia é essa? Para si, no mínimo dos mínimos, ela é uma Senhora, ouviu bem? Uma Senhora...
- Oiça lá, eu não o conheço de lado nenhum para me falar nesses modos! Quem julga que é? Eu falo com quem quiser e onde quiser. Julga-se dono dela ou quê? Nem casados eram...

Aquilo... subiu-me cá uma cólera pelas tripas que nem quero pensar. Está claro que fui logo direito ao gajo para lhe rebentar as trombas.
Ás tantas já estavamos os dois completamente embrulhados de socos e pontapés. Ah ah ah foi bonito de se ver... até a vizinha de baixo veio ver o que se passava. Tive que a ameaçar que se ela não se fosse embora comia pela mesma medida mas a cabra da velha retorquiu a dizer que chamava a polícia. Ah ah ah ah ah ah... o parvo do Daniel amansou logo os cavalos e a velha lá se foi embora a resmungar.
Estavamos ambos a arfar. Ainda pensei em dar-lhe com uma chave de fendas na pinha mas depois matava o gajo e aí é que era o bom e o bonito...

- Não vale a pena meu caro amigo... espere lá um pouco...
- Seu... seu...
- Deixe-me falar! Foda-se! Acalme-se lá amigo. – E esta mão que lhe tinha dado umas valentes murraças, agora apoiava-se no ombro do infeliz. – Deixe que lhe explique uma coisinha. Eu sei de tudo o que se passou entre si e ela. Hoje de manhã aquela desgraçada levou as chaves todas e pirou-se não sei para onde. Preciso da minha carteira com os documentos que me esqueci lá dentro. Não vejo outra maneira senão arrombar a porta e mandar trocar a fechadura. O meu amigo espere aqui que preciso dizer-lhe coisas importantes... e é para seu bem...
- Se pensa que pode ameaçar-me ou chantagear-me está redondamente enganado.
- Não, não meu caro... espere... espere que logo verá... não se arrepende...

Notei que o fulaninho ficou receoso mas intrigado. Os homens da fechadura ficaram de vir no dia seguinte e eu tive de passar mais uma noite naquele apartamento que agora me parecia uma alcova de prostituta reles. Estava-te com um ódio Carolina... e ainda estou...
Nessa noite convidei o peão que faltava para complementar o meu jogo, a jantar lá em casa. Claro que mandamos vir umas pizzas e umas porcarias de refrigerantes. Eu não bebo cerveja. Só vinho e do bom. Cerveja é bebida rasca para gajos sem intelecto... e aquela esgroviada não tinha vinho em casa. Só merda de gin. (cont.)